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Entrevistas

Entrevista Zetho Cunha Gonçalves

| Editoria Entrevistas | 19/08/2019

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Noite Vertical, livro em súmula de poemas para se ler com muita atenção ocupa, desde já, um lugar particular no panorama da literatura angolana. Não porque, merecidamente, ganhou o prémio DST/Camões, que o seu autor foi receber à Luanda, na sede da União dos Escritores, mas porque nele está o tamanho do que vem sendo a obra do seu autor.

O cidadão Zetho Cunha Gonçalves vive em Angola, embora resida em Lisboa e viaja pelo mundo. A que já foi, nos idos da juventude, viagem de andar com os pés no chão, é hoje o que sempre escolheu: a poesia, os livros, seus e dos outros.

LUGAR E TRANSFIGURAÇÃO POÉTICA

 

Por Amável Fernandes

Comecemos pelo nome próprio, assumido como tal, embora não seja aquele que consta no registo civil. Zetho surge como pseudónimo para depois se autonomizar? Nasce como um signo da diferença? Esconde, conota, projecta, um trabalho poético que completa agora 40 anos de actividade?

Desde que me lembro de mim, enquanto gente, sempre foi por Zetho e não pelo nome que consta no chamado registo civil que fui chamado, e ainda hoje, há pessoas que me tratam pelo diminutivo Zethinho. O que, efectivamente, sinto como pseudónimo ou nome estranho e alheio é precisamente quando sou convocado pelo nome do BI. Logo, ser Zetho e assinar o que assino com esse nome, nestes 40 anos de labor poético e literário, nada esconde ou dissimula: é o rosto íntegro que «afronta o Sol e seus astros menores», como se lê num poema.

A sua mundividência tem Angola como a ilha maior de um arquipélago onde o Cutato, lugar de aprendizagem e de formação, é a gramática primeira. Provoco: toda a infância é uma reinvenção posterior. Pode, a poesia, restituir-lhe as vozes inaugurais ou é a sua metamorfose, o seu eco?

Tenho a infância como o mais sagrado dos espaços para qualquer ser humano. Infelizmente, muitas crianças nunca tiveram infância, e hoje, reparando em redor, as crianças não brincam, não dão trambolhões nem esfolam os joelhos a trepar às árvores, na sua mais elementar descoberta das coisas do mundo. Quanto à minha infância, naquela pequena povoação sem água canalizada nem luz eléctrica, chamada Cutato, é um dos maiores privilégios que a Vida alguma vez me deu. É lá, nas quedas do rio Cutato, que reside a minha Pátria inaugural da Poesia. É o lugar de onde nunca me ausentei para lugar nenhum, muito embora as solas dos meus sapatos percorram as mais estrangeiras das ruas por onde calha ir respirando, porém, a sola dos meus pés é lá que pisam e dançam o maravilhamento de que a minha poesia é capaz de materializar. Não sou capaz de me imaginar poeta sem toda aquela vivência, as brincadeiras inventadas à força de provérbios e jogos de adivinhas, desde o balbuciar das primeiras palavras na língua nganguela, que aprendia ao mesmo tempo que aprendia a falar em português, ou a invenção de brinquedos e a decifração da Vida e dos mistérios da selva e do mundo, no seu mais vivo esplendor.

De um poeta, diz-se, interessa a obra e pouco importam as vicissitudes da vida. Está a caminho dos sessenta anos. Sei que tem sido um percurso de várias geografias e de viscerais experiências humanas, a guerra, por exemplo. Quer falar disso?

Na infância, foi a guerra de libertação nacional quem passava muito próximo à porta de casa. Desde muito cedo acompanhava o meu pai, pelos segredos da noite, a levar sacos de fuba e malas de peixe seco para os guerrilheiros do MPLA que combatiam no Cuando Cubango. Isto, para além de ouvirmos diariamente a Voz de Angola Combatente, emitida a partir de Brazzaville, pelo MPLA, e a Voz de Angola Livre, emitida a partir de Kinshasa, pela FNLA. Aliás, foi numa noite de 1965, ainda eu não tinha entrado para a escola primária, onde fui o único menino não negro, que, ao ouvir pela voz de Adolfo Maria, um poema cujo título e autor nunca soube, nem vou agora inventar, mas que me falou de tal forma da Terra que sou, que me virei para os meus pais e disse: Quando aprender a escrever, vou ser Poeta!

Voltando à guerra e à questão colocada, depois da entrada dos movimentos de libertação em Angola, e ainda nos alvores da guerra civil que já pairava nos horizontes, decidi aderir à FNLA e acabei sendo um adolescente-soldado da BJR, chegando a comandante-geral de Batalhão. Aqui, não com um pseudónimo, mas com nome de guerra: Ché Guevara. Vi e vivi experiências terríveis, mas uma coisa me enche de orgulho: com o dinheiro do meu pai, pedido através dos telemóveis da época, o Pê 19, enchi vários depósitos de aviões das FAP para transportar para fora da morte certa toda a gente que me foi possível salvar. E não foi pouca. Dessas experiências tenebrosas, só depois da conquista da Paz, em 2002, consegui escrever alguns poemas (que integram Noite Vertical) e dois contos que figuram em antologias publicadas pela UEA. Está lá, poética e literariamente, todo o horror por que passaram milhares de angolanas e angolanos…

Que vozes mais o inquietam? As que se presentificam na Região Brilhante, no Testamento do Mundo, em O Rio sem Margem, em A Noite Vertical? E que interseções convoca para a sua poesia?

Inquietam-me aquelas vozes que só as grandes paixões sabem fazer segredar e cujos dizeres implicam uma decifração capaz de produzir a nomeação inaugural do poema. Lembremo-nos, por exemplo, de que antes de haver Deus já existia Poesia: foi necessário haver um Poeta que criasse e nomeasse Deus para que Ele existisse, como se pode ler no Génesis: «No princípio era o Verbo».

Naturalmente que, para mim, a escrita de um poema é muito mais uma reescrita sem concessões ao banal e à facilidade, muito embora com a consciência de que tudo está já feito, há apenas que fazer tudo ser dito de uma forma que seja uma voz outra, que se não confunda. Neste sentido, é fundamental um conhecimento, o mais lato possível, das poesias do mundo, as quais afluem para a sedimentação dessa voz outra que pretendo impor a tudo quanto faço. Não existe um único grande poeta que não seja simultaneamente um implacável leitor omnívoro. Mas, deixe-me dizer-lhe, que ninguém imagina o preço de sangue que se tem que pagar por cada palavra escrita.  

Assinalo um cru testemunho da guerra num conto seu. Percebo-lhe um lugar de indagação e apaziguamento, eivado de inquietudes, nas poéticas da oralidade angolana e outras que convoca, com as quais faz amor, condição primeira da transcendência. É assim? Mesmo sabendo que o poema é irredutível e nada o substitui?

As oraturas são uma das minhas paixões mais insistentes e persistentes, sem as quais nenhum povo tem rosto nem voz. É delas que nasce toda a potenciação criadora, e, como se pode ver na minha obra, a reescrita reinventora das oraturas é uma das faces visíveis do que venho fazendo. 

Nos poemas e contos, onde a guerra civil se expõe, há como que um esconjuro de fantasmas e memórias que se não apagam, mas que são, para mim, absolutamente fundamentais, como testemunho de vida e de mundo. Ao escrever sobre a guerra, e tudo quanto sobre ela escrevi, escrevi-o como que em alucinante catarse desse tempo de realidade absolutamente invivível, impossível de habitar, posto que numa guerra ninguém quer matar ninguém: o segredo de tudo é sobreviver, escapar à morte e à mutilação. E, no entanto, há morte, há mutilações, há marcas de fogo que não deixam nunca de queimar, fulminar.

A literatura infantil e juvenil, que tem praticado com manifesta ternura e imaginação, sempre enraizada no seu território de afectos, contribui para uma espécie de apaziguamento, se é que esta palavra está bem aplicada?

Há uma diferença abissal entre essas duas vertentes de criação poética e literária, muito embora a escrita de poesia e literatura para a infância e juventude seja, não raro, muito mais difícil do que a escrita para um público adulto, chamemos-lhe assim. E isto, porque o leitor infantil ou jovem é muito mais implacável, e não perdoa ao autor excessos de moralismos e falhas de imaginação sensível, que é o que ao leitor em formação mais importa. No meu caso pessoal, partindo da memória e das vivências da criança que nunca deixei de ser, sento lado a lado a criança que sou com o homem que tem a idade que eu tenho hoje. E é a criança que me corrige, me chama a atenção para algum deslize na escrita, me sugere o quê e o como dizer o que pretendo que seja, poema ou estória. Nesta escrita criadora a duas cabeças, chamemos-lhe assim, há, de facto, um encantamento e uma dose de humor que se não verificam na outra forma de escrita. Mas a escrita nunca é uma forma de apaziguamento, é sempre inquietação e angústia, se não mesmo um medo feroz de poder falhar, coisa sempre iminente.

Vive à volta dos livros, da leitura, das obras que organiza de outros autores, sobretudo da literatura portuguesa. Ainda agora pegou no Huidobro, árduo desafio e revisitou os griots e as mulheres da América Latina indígena, a parte duplamente oculta. O que o faz correr, Zetho Cunha Gonçalves? O abraçar uma poesia do Mundo, a toda, a possível? Ocorre-me pensar em Jorge Luís Borges e na metaforização da Biblioteca.

Só a grande e poderosa Poesia do Mundo me faz, não tanto correr, mas Viver. Costumo dizer que, quando quero ler um livro e ele não existe, invento-o. Como não sou egoísta nem invejoso, organizo e faço publicar essas obras que tenho vindo a organizar. E o mesmo sucede com as traduções de poesia, que são de poetas que amo visceralmente, e que na maioria dos casos quase ninguém conhece. Talvez o mundo não seja mais que um único Livro em constante acrescento e reescrita. Talvez. E é nessa amálgama de vozes e de sageza que me vou movendo e trabalhando, mesmo quando são nenhumas as condições de trabalho que se me oferecem. É a minha vingança: sem condições de espécie alguma, conseguir parir livros que tenho a certeza que contarão alguns grãos de areia nas longas estradas vivas do Mundo. Enquanto houver um ser humano sobre a Terra haverá Poesia. Isso me basta.

Ainda agora esteve em Luanda. O que sentiu depois de tantos anos de “exílio”? Com circunstâncias várias a impedirem-no a revisitação dos longes, tão perto e dentro de si, o seu Cutato, o seu Huambo?

Sendo o poeta angolano que sou; e, como poeta angolano, ter sido nomeado para Prémio Nobel de Literatura (valha isso o que valer), se nunca saí de Angola (e, mais concretamente, do meu Cutato), é terrivelmente macabro entrar aeroporto adentro da capital da minha Terra e do meu país como cidadão estrangeiro, com prazo estipulado para respirar o ar que me pertence em absoluto. Mas isso são as contingências da burocracia, não raro alimentadas por alguns rochedos patriotas que se não furtam à posse do passaportezinho do colonizador. E isso dói, dói não ir ver a campa dos meus avós, à Caála, ou ir respirar os ares do meu Cutato, eu que conheço Angola como pouca gente a conhece! Pelo que tenho feito, enquanto poeta e autor de literatura para a infância e juventude, por Angola, mereço uma atenção outra por parte do próprio Estado angolano.

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