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Política

Etiópia: o tigre encurralado

| Editoria Política | 19/08/2019

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Não se saberá, provavelmente nunca, a verdade acerca dos assassinatos políticos de 22/23 de Junho, na Etiópia, dado que o general Asaminew Tsige, acusado da «tentativa de golpe de Estado» que vitimou, entre outros, o presidente da região Amhara, Ambachew Mekonnen, e o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Etíopes, o general Seare Mekonnen, foi morto dias mais tarde, num tiroteio com as forças de segurança. Mas uma coisa é certa: a situação é suficientemente grave para obrigar o primeiro-ministro Ahmed Abiy, no poder desde Abril de 2018, a virar as costas às suas promessas de abertura democrática e de reconciliação e a relançar a máquina repressiva bem oleada, que permitiu aos seus antecessores governar com mão de ferro o segundo país mais populoso de África.

Por Nathalie Ahmed

MAIS DE 300 «SUSPEITOS» DETIDOS, Internet cortada em todo o país, a repressão visando a comunidade amhara, a segunda maior do país, faz dizer a muitos dos etíopes que saudaram com entusiamo as reformas empreendidas por Ahmed Abiy que, no fundo, nada mudou.

Outros ironizam acerca da actividade diplomática do seu primeiro-ministro que, «em vez de se ocupar a fazer a paz nos países vizinhos (Eritreia, Sudão, Sudão do Sul, Somália) deveria preocupar-se em pacificar o seu próprio país». Com três milhões de deslocados internos, a Etiópia é, há anos, o palco de violências etno-políticas que não dão sinais de abrandar, antes pelo contrário. A tal ponto que os observadores mais atentos comparam a Etiópia de hoje com a Jugoslávia antes do seu desmembramento.

Em causa está a constituição federal, aprovada em 1994, que reconhece uma ampla autonomia a cada uma das nove regiões, desenhadas em função de clivagens étnicas e religiosas, incluído o direito de secessão e independência. Uma constituição talhada à medida do fundador do actual regime, Meles Zenawi (falecido em 2012): chegado ao poder como líder de uma coligação de guerrilhas que derrubaram em 1991 o regime militaro-comunista de Mengistu Haile Mariam, Zenawi aplicou o mesmo modelo à organização do novo sistema político. A sua Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRE), partido quase único no poder desde então, em Addis Abeba, reunia as forças nacionalistas vitoriosas, sob a liderança da Frente de Libertação do Tigré, a etnia do chefe de Estado, minoritária face aos oromos (35%) e aos Amhara (27%).

Sob Zenawi, a oposição – sempre brutalmente reprimida – ao governo central tendeu a focalizar-se contra a alegada hegemonia dos tigrenos sobre o poder – político, militar e económico – e foi uma violenta revolta dos Amharas que empurrou o seu sucessor a demitir-se, em 2018. Ao eleger Abiy como novo líder, o FDRE julgou ter encontrado a forma de reconciliar as principais etnias: filho de um oromos (muçulmano) e de uma amhara (copta), o jovem Abiy é evangélico e serviu durante 20 anos nas forças armadas como organizador dos serviços de informação e especialista em vigilância informática…

Não foi o que aconteceu às reformas empreendidas, a toque de caixa, pelo novo governo, com o objectivo de modernizar a economia, a administração e as forças armadas, as privatizações e o combate contra a burocracia estatal. A corrupção e o nepotismo lesaram muitos interesses e os despedimentos e destituições deram lugar a interpretações malévolas. Simultaneamente, a amnistia e libertação de mais de 13 000 presos políticos reforçou as fileiras das oposições nacionalistas, rotuladas de «terroristas» sob Zenawi e de novo legalizadas.

O «melhor aluno» da China em África

Os etíopes, e os amhara em particular, são orgulhosos da sua história milenar, da sua língua e escrita, de terem sido o primeiro Estado cristão do mundo (desde o ano 330), o primeiro país africano membro da Sociedade das Nações, co-fundadores da Organização da Unidade Africana (OUA) e de nunca terem sido colonizados. Mas a democracia não faz parte desta herança: de Haile Selassie, o último imperador, também chamado o Rei dos Reis, a Zenawi, passando por Mengistu, o «Negus Vermelho», a unidade nacional foi sempre imposta pela força. A secessão da Eritreia, consentida em 1993, entre «irmãos de armas», foi uma excepção e um exemplo que muitos outros «nacionalistas radicais» sonham em repetir, nomeadamente entre os Amharas, cristãos, e os oromos, tigrenos e somalis, muçulmanos. Tsige, o presumível organizador do golpe falhado, pertence aos primeiros; preso e condenado a prisão perpétua, em 2011, como dirigente do partido Gimbot 7, foi liberado e reintegrado nas Forças Armadas etíopes, com o grau de general em 2018 e estaria a organizar milícias, segundo o modelo do Exército de Libertação do Sudão.

Todos os analistas estimam que o federalismo «étnico», que permitiu a Zenawi governar durante mais de um quarto de seculo, é incompatível com a «democracia liberal de tipo ocidental», que Abiyse julga predestinado para implantar no país, que já foi considerado como o «melhor aluno da China» em África.

Sob o comando de Meles Zenawi, a Etiópia, outrora a nação mais pobre do planeta, conheceu um desenvolvimento espetacular, inspirado no modelo dos «dragões asiáticos», dopado pelos investimentos públicos, chineses e indianos, com um crescimento a dois dígitos, e vantagens competitivas imbatíveis em termos de custo de mão-de-obra, fiscalidade e direitos alfandegários, para atrair indústrias pouco sofisticadas.

Para ultrapassar o obstáculo criado às exportações, pela ausência de uma costa marítima, Addis Abeba apostou na modernização da via-férrea até ao Djibouti, e no desenvolvimento da Ethiopian Airlines, a maior companhia aérea do continente e a única capaz de rivalizar com companhias europeias, detentoras de 80% do mercado, transformando Addis Abeba num vértice do tráfego triangular entre a África, Europa e a Ásia.

As instituições financeiras internacionais advertiam dos perigos inerentes a esta economia dirigista, excessivamente dependente dos financiamentos chineses: endividamento galopante, balança comercial desastrosa, penúria crónica de divisas. A chegada de Abiy foi uma «divina surpresa», abençoada por Washington e Bruxelas. Fervoroso defensor do modelo liberal, da globalização capitalista e dos mercados, o jovem primeiro-ministro (43 anos) aposta na privatização dos monopólios de Estado, da telefonia aos transportes, passando pela energia, têxteis e hotelaria e começou por desmantelar a Metec (Metal and Engineering Corporation), complexo militar industrial controlado por generais maioritariamente tigrenos. E não exclui a abertura aos investidores estrangeiros (ocidentais e árabes) o capital da jóia da coroa, a Ethiopian Airlines.

A espetacular reconciliação com o vizinho eritreu – fortemente encorajada pelos Estados Unidos, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – deveria permitir à Etiópia deixar de depender do porto do Djibouti, sobrelotado, para o seu comércio externo.

A unidade fragilizada

Mas Addis Abeba, a cosmopolita, esconde a pobreza que grassa no resto do país, onde se concentra 75% da população, e em particular no sul, onde os camponeses, que trabalham como na Idade Média, se batem para defender as suas terras, ameaçadas pelas plantações estrangeiras e a expansão das zonas industriais.

Paradoxalmente, a abertura ensaiada por Abiy parece ter libertado os ódios requentados e os apetites de vingança. O PM minimiza e atribui o descontentamento à impaciência de uma juventude, mais bem formada e conectada, que não encontra empregos à altura das suas ambições e se deixa manipular por «demagogos» que querem fazer fracassar as reformas. «Quando se trabalha, não há tempo a perde em disputas anacrónicas», garante.

Mas, segundo os peritos, Abiy e a sua equipa enganam-se quando subestimam a toxicidade da obsessão identitária. Com os recentes assassinatos políticos, já não foi possível atribuir a violência a alguns nostálgicos do anterior sistema, como em Junho de 2018, quando Abiy foi vítima de um atentado durante um comício na capital, ou a 11 de Novembro, quando um comando de militares de elite irrompeu pelo gabinete do primeiro-ministro, mas acabou por se retirar, após um face-a-face crispado.

A violência e a insegurança não param de crescer, nos quatro cantos do país e nos arredores de Addis Abeba, e um clima de limpeza étnica instala-se em várias regiões da federação. Se a revolta dos oromos esteve na origem da mudança política em curso, a dos Amharas ameaça a frágil existência do Estado. E o contexto regional não favorece a estabilidade. Por mais que Abiy se empenhe em fazer-se de mediador nas crises dos países vizinhos, os conflitos em curso nos Sudões, na Somália e no Quénia transbordam para o interior das fronteiras etíopes. Com eleições marcadas para o próximo ano, os próximos meses vão ser difíceis para o governo etíope. 

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