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As rosas de Ermera

Luís Cardoso | Editoria Opinião | 05/11/2015

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Foi depois de uma sessão de solidariedade com a luta do povo timorense no Teatro Aberto em Lisboa, que Zeca Afonso me fez a revelação que os pais estiveram em Timor, enclausurados num campo de concentração de japoneses, quando o território foi ocupado. Tudo aconteceu durante a segunda Grande Guerra Mundial. Portugal declarou-se neutral perante o conflito. Primeiro entraram os aliados dizendo que o faziam como forma de impedir o desembarque dos japoneses. Depois entraram estes últimos com o argumento de que queriam expulsar os aliados. No meio de tudo isso mais de quarenta mil timorenses faleceram durante a ocupação e os portugueses ficaram reféns dos invasores.   

A notícia surpreendeu-me dado que nunca me passou pela cabeça que o grande cantor, por quem nutria admiração e respeito, tivesse alguma relação pessoal com Timor. Fiquei contente com a revelação. Havia algo de comum que nos unia para além da causa.    

A sessão de solidariedade aconteceu depois da realização do Tribunal Permanente dos Povos que teve lugar num hotel de Lisboa. Foi nos finais dos anos 70, quando a Indonésia estava a realizar a campanha de cerco e aniquilamento, provocando um drama humano em Timor-Leste sem precedentes. Lembro-me que nesta sessão, o então ministro da Defesa da autoproclamada RDTL, que se encontrava fora do território, fez uma alocução de duas horas e meia descrevendo minuciosamente cada combate entre as forças da guerrilha e as forças da ocupação, as armas utilizadas, as tácticas e as estratégias militares, as baixas… No fim a audiência estava toda adormecida. Zeca Afonso resistiu ao sono. Cantou de seguida algumas canções. Disponibilizou-se junto dos dirigentes timorenses para colaborar na campanha pela independência de Timor. Creio que foi uma das grandes causas que apoiou até ao fim da sua vida. 

Tive o privilégio de conhecer a sua família. Lembro-me da sua mãe. Revelou-me que o melhor que recordava de Timor era o cheiro. Mariazinha, a sua irmã mais nova que acompanhou os pais durante esse período conturbado, escreveu um manuscrito a que deu o nome de Rosas de Ermera. Ermera, um local situado no interior de Timor, na zona do café. Baseado neste manuscrito Luís Filipe Rocha decidiu partir para Timor, com Mariazinha, para fazer as filmagens de um documentário sobre a passagem da família de Zeca Afonso por aquele território. O autor de Grândola Vila Morena e mais outro irmão não acompanharam os pais e encontravam-se sob a guarda de parentes. Nada sabiam do que se passava com os familiares em Timor, durante o tempo que durou a ocupação japonesa. O documentário insere também uma parte que se relaciona com uma outra passagem por Moçambique. Nada melhor do que ler O Último Colono, o livro de João Afonso Santos, o irmão mais velho do cantor, editado pela Sextante, uma das grandes novidades deste outono/inverno.  

O Governo timorense fez bem em apoiar localmente este projeto, na medida em que retrata de um dos momentos mais dramáticos da história de Timor. De uma forma interessada fui acompanhando, no outro lado do mundo, a ida de Mariazinha a Timor, setenta anos depois. Deve ter sido difícil reconhecer a cidade de Díli dado que muita coisa mudou. A cidade alargou-se para fora dos seus limites iniciais. Ainda assim, soube que encontrou a casa onde residia com os pais antes do internamento no campo de concentração. Em Ermera, reconheceu uma árvore que lhe sorriu, se as árvores sorrissem, com o seu regresso. 

Num momento em que Timor-Leste assume a Presidência da CPLP nunca é demais lembrar que mais do que as parcerias económicas que se possam estabelecer entre os países membros, são sobretudo as parcerias culturais que podem relançar a organização para além das suas fronteiras. 

O cinema, a literatura, a música, a pintura, o teatro poderão constituir mais-valias, quando a crise económica parece ser o elemento comum em todos os países da organização, muitos deles dependentes do flutuante preço do petróleo. 

Luís Cardoso

[Texto publicado na edição N.º 102 da revista África21]

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